Quem fecha o livro de Malaquias e abre o Evangelho de Mateus atravessa, em uma página, cerca de quatrocentos anos. Ao terminar o Antigo Testamento, Israel é uma pequena província persa, reunida em torno de um templo modesto, falando hebraico e aramaico. Ao começar o Novo, a Judeia é governada por Roma, tem um templo reconstruído com esplendor por Herodes, fala grego nas cidades e está dividida entre fariseus, saduceus, essênios e zelotes. Nada disso surgiu do nada: tudo foi formado nesse intervalo.
A tradição chama esse tempo de "os 400 anos de silêncio", porque nenhum profeta canônico se levantou em Israel. O próprio povo tinha consciência disso: 1 Macabeus 9:27 fala de uma aflição "como não houve desde o dia em que deixou de aparecer profeta entre eles". Amós havia anunciado: "Eis que vêm dias... em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do SENHOR" (Am 8:11).
Um silêncio que não é ausência. As últimas palavras de Malaquias apontam adiante: "Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR" (Ml 4:5). E o Novo Testamento rompe o silêncio exatamente ali: Marcos abre com a voz que clama no deserto (Mc 1:2-3), e o anjo anuncia que João viria "no espírito e poder de Elias" (Lc 1:17). Deus não falou por profetas, mas governou a história. As profecias de Daniel sobre Pérsia, Grécia e o reino que viria depois (Dn 2; 7; 8; 11) cumpriram-se nesses séculos com precisão impressionante.
Paulo resume o sentido teológico do período: "vindo, porém, a plenitude do tempo (to plērōma tou chronou), Deus enviou seu Filho" (Gl 4:4). Plērōma é o que enche até a borda. Os quatro séculos foram o tempo em que Deus encheu a medida — política, cultural, linguística e espiritual — para a chegada do Messias.
