As ideias têm genealogia. A cultura woke não surgiu nas redes sociais: é o ponto de chegada de um século de pensamento acadêmico. Conhecer os autores — pelo que realmente escreveram — evita tanto a ingenuidade quanto a caricatura.
| Grupo | Pensador | Obra-chave | Contribuição |
|---|
| Precursores | Herbert Marcuse | Repressive Tolerance (1965) | Tolerância seletiva; novos sujeitos revolucionários |
| Precursores | Michel Foucault | Vigiar e Punir (1975) | Poder difuso que produz "verdades" |
| Precursores | Jacques Derrida | Gramatologia (1967) | Desconstrução das categorias |
| Precursores | Jean-François Lyotard | A Condição Pós-Moderna (1979) | Incredulidade nas metanarrativas |
| Precursores | Paulo Freire | Pedagogia do Oprimido (1968) | Educação como conscientização do oprimido |
| Teóricos | Derrick Bell | Faces at the Bottom of the Well (1992) | Fundador da teoria crítica da raça |
| Teóricos | Kimberlé Crenshaw | "Demarginalizing the Intersection" (1989) | Interseccionalidade |
| Teóricos | Judith Butler | Problemas de Gênero (1990) | Gênero como performance |
| Divulgadores | Ibram X. Kendi | How to Be an Antiracist (2019) | Antirracismo ativo e equidade |
| Divulgadores | Robin DiAngelo | White Fragility (2018) | "Fragilidade branca" |
| Divulgadores | Djamila Ribeiro | O que é lugar de fala? (2017) | Lugar de fala no Brasil |
| Críticos | John McWhorter | Woke Racism (2021) | O antirracismo como religião |
| Críticos | Pluckrose e Lindsay | Cynical Theories (2020) | Genealogia do pós-modernismo aplicado |
| Críticos | Carl Trueman | The Rise and Triumph of the Modern Self (2020) | Individualismo expressivo |
| Críticos | Voddie Baucham | Fault Lines (2021) | Crítica evangélica à justiça social |
| Críticos | Shenvi e Sawyer | Critical Dilemma (2023) | Análise cristã da teoria crítica |
Os precursores
Herbert Marcuse (1898-1979). Filósofo judeu alemão da Escola de Frankfurt, emigrou para os Estados Unidos com a ascensão do nazismo e lecionou em Brandeis e na Universidade da Califórnia. Em O Homem Unidimensional (1964), criticou a sociedade de consumo por domesticar a capacidade crítica. Em Repressive Tolerance (1965), defendeu que a tolerância neutra protege o sistema e que a "tolerância libertadora" significaria intolerância contra movimentos da direita e tolerância com os da esquerda. Tornou-se o grande inspirador da Nova Esquerda dos anos 1960. Influência: a ideia de que nem todo discurso merece tolerância, base teórica de práticas de desplataformização e cancelamento.
Michel Foucault (1926-1984). Filósofo francês, professor do Collège de France desde 1970. Em História da Loucura (1961), Vigiar e Punir (1975) e História da Sexualidade (1976-1984), estudou como instituições — prisões, hospícios, escolas — disciplinam corpos e mentes. Para ele, o poder não está centralizado num rei ou num Estado, mas espalhado em redes de relações, e produz aquilo que uma época considera verdadeiro e normal ("poder-saber"). Morreu em 1984 de complicações ligadas à aids. Influência: a visão de que o racismo, o sexismo e a heteronormatividade estão embutidos nos discursos institucionais; a desnaturalização das categorias de sexualidade. Avaliação: Foucault iluminou abusos reais de poder, mas, ao reduzir a verdade ao poder, não deixa critério para julgar o próprio poder como injusto.
Jacques Derrida (1930-2004). Filósofo franco-argelino, criador da desconstrução (Gramatologia, 1967). Sustentou que o sentido de um texto nunca é fixo e que o pensamento ocidental se organiza em pares hierárquicos que podem ser invertidos. Influência: o hábito de "desconstruir" binários como homem/mulher e a suspeita de que a linguagem esconde relações de dominação.
Jean-François Lyotard (1924-1998). Filósofo francês, autor de A Condição Pós-Moderna (1979), encomendado pelo Conselho de Universidades de Quebec, que popularizou o termo "pós-moderno" e o definiu pela incredulidade em relação às grandes narrativas. Influência: a rejeição de qualquer história universal — inclusive a cristã — como pretensão totalizante.
Paulo Freire (1921-1997). Educador nascido em Recife, exilado após 1964. Em Pedagogia do Oprimido (1968), criticou a "educação bancária", em que o professor deposita conteúdos no aluno, e propôs uma educação dialógica que levasse o oprimido à "conscientização" de sua condição. Patrono da Educação Brasileira desde 2012. Influência: a pedagogia crítica, que lê a sala de aula como espaço de luta entre opressores e oprimidos. Avaliação: o valor do diálogo e da alfabetização de adultos é real; a moldura marxista da obra, que divide o mundo em opressores e oprimidos, é o ponto de divergência.
Os teóricos
Derrick Bell (1930-2011). Advogado de direitos civis do Fundo de Defesa Legal da NAACP, primeiro professor negro efetivo da Faculdade de Direito de Harvard (1971). É considerado o fundador da teoria crítica da raça. Desenvolveu a tese da "convergência de interesses": os avanços dos negros só aconteceriam quando coincidissem com os interesses dos brancos. Em Faces at the Bottom of the Well (1992), defendeu que o racismo é parte permanente da sociedade americana ("realismo racial"). Avaliação: Bell expôs injustiças históricas reais, mas sua tese da permanência do racismo nega a possibilidade de reconciliação — o oposto da esperança cristã (Ef 2:14-16).
Kimberlé Crenshaw (1959). Jurista americana, professora na UCLA e em Columbia. Em 1989, cunhou o termo "interseccionalidade", analisando casos como DeGraffenreid v. General Motors (1976), em que tribunais não reconheciam a discriminação sofrida por mulheres negras porque ela não se encaixava nem na categoria "raça" nem na categoria "sexo" isoladamente. Influência: a interseccionalidade tornou-se a moldura que combina múltiplas identidades num sistema de opressões sobrepostas. Avaliação: a observação jurídica original é pertinente; o problema surge quando a interseccionalidade passa a hierarquizar pessoas por grau de opressão, criando uma escala moral baseada em identidade.
Judith Butler (1956). Filósofa americana, professora em Berkeley. Em Problemas de Gênero (1990), argumentou que o gênero não expressa uma realidade prévia, mas é constituído pela repetição de atos — é "performativo". Em Corpos que Importam (1993), estendeu a análise ao próprio sexo, que também seria discursivamente construído. Influência: base da teoria queer e da separação entre identidade de gênero e sexo biológico. Avaliação: a Bíblia afirma que o corpo sexuado é dom da criação (Gn 1:27; Mt 19:4), não ficção social.
Os divulgadores modernos
Ibram X. Kendi (1982). Historiador americano, autor de Stamped from the Beginning (2016, National Book Award) e do best-seller How to Be an Antiracist (2019). Fundou o Center for Antiracist Research na Universidade de Boston (2020). Sustenta que não existe ser "não racista": ou se é racista, ou antirracista, e que toda desigualdade entre raças resulta de políticas racistas. Avaliação: a tese elimina a responsabilidade individual e a complexidade das causas sociais; e a defesa da discriminação compensatória contraria a justiça imparcial.
Robin DiAngelo (1956). Educadora americana, consultora de diversidade em empresas. Em White Fragility (2018), que se tornou best-seller após a morte de George Floyd em 2020, afirma que os brancos são socializados no racismo e reagem com defensividade quando confrontados. Em entrevista à NPR, ela descreveu o racismo como "o fundamento da sociedade em que vivemos". Publicou depois Nice Racism (2021). Avaliação: a tese é irrefutável por construção — qualquer reação confirma a acusação — e atribui culpa moral pela cor da pele.
Djamila Ribeiro (1980). Filósofa brasileira, nascida em Santos, mestre em Filosofia Política pela Unifesp, foi secretária-adjunta de Direitos Humanos da cidade de São Paulo (2016). Coordena a coleção Feminismos Plurais, aberta com O que é lugar de fala? (2017). Seu Pequeno Manual Antirracista (2019) foi um dos livros mais vendidos do país. Baseia-se na teoria do ponto de vista feminista (Patricia Hill Collins) e em Foucault. Ela insiste que todos têm lugar de fala e que o conceito não proíbe ninguém de falar. Avaliação: a autora é mais cuidadosa que o uso popular do conceito; ainda assim, a premissa de que a posição social condiciona a legitimidade do discurso é o ponto de divergência com a visão bíblica de verdade.
Os críticos
John McWhorter (1965). Linguista negro da Universidade de Columbia e colunista do New York Times. Em resenha na revista The Atlantic (2020), afirmou que White Fragility infantiliza os negros. Em Woke Racism (2021), descreve o "antirracismo de terceira onda" como uma religião, com pecado original (o privilégio branco), clero, hereges e apocalipse — segundo a resenha da Publishers Weekly, uma "religião em tudo, menos no nome". Nota: McWhorter não é cristão; sua crítica é secular e liberal, o que mostra que a objeção não é apenas religiosa.
Helen Pluckrose e James Lindsay. Ela, escritora britânica liberal e editora da revista Areo; ele, matemático americano. Ficaram conhecidos pelo "caso dos estudos de queixas" (2017-2018), em que enviaram artigos falsos a revistas acadêmicas para testar seus padrões. Em Cynical Theories (2020), traçam a evolução do pós-modernismo em três fases: a desconstrutiva, a aplicada e a reificada. Os autores se declaram contrários à "Justiça Social" com maiúsculas justamente porque defendem a justiça social com minúsculas.
Carl Trueman (1967). Historiador e teólogo presbiteriano, professor no Grove City College. Em The Rise and Triumph of the Modern Self (2020), traça, a partir de Rousseau, Marx, Nietzsche e Freud, a ascensão do "individualismo expressivo" — o eu definido por seus sentimentos interiores — como raiz da revolução sexual e das identidades contemporâneas.
Voddie Baucham (1969). Pastor batista negro americano, deão de teologia da African Christian University, na Zâmbia. Em Fault Lines (2021), argumenta que a teoria crítica da raça é uma cosmovisão incompatível com o cristianismo e alerta para sua influência em seminários e igrejas evangélicas. É um dos críticos mais lidos no meio evangélico, e também contestado por outros evangélicos, que o acusam de generalizações.
Neil Shenvi e Pat Sawyer. Shenvi, doutor em química teórica por Berkeley; Sawyer, doutor em estudos culturais. Em Critical Dilemma (2023), eleito livro do ano pela revista World, analisam a teoria crítica contemporânea, reconhecem que ela traz algumas percepções legítimas sobre raça, classe e gênero, condenam o racismo e mostram por que suas premissas centrais são incompatíveis com a fé cristã.
Recortes da imprensa
• NPR, julho de 2020. Em entrevista, John McWhorter disse considerar o trabalho de DiAngelo bem-intencionado, mas, em suas palavras, inócuo — e reconheceu que o racismo é real e muitas vezes inconsciente.
• USA Today/Ipsos, março de 2023. A pesquisa mostrou que 56% dos americanos associam "woke" a consciência de injustiças, enquanto 60% dos republicanos considerariam um insulto ser chamado assim.
• Gazeta do Povo, coluna de Francisco Razzo. O colunista, crítico do conceito de lugar de fala, admitiu após reler o livro que muitos atacam uma versão que a autora não escreveu, e manteve sua objeção quando o conceito vira tribunal da legitimidade da fala.
• Tribuna de Minas, entrevista com Djamila Ribeiro. A autora afirmou que lugar de fala não é um interdito, mas o rompimento de um interdito que já existia.
• Christianity Today, agosto de 1995. Ao noticiar o pedido de perdão da Convenção Batista do Sul pelo apoio histórico à escravidão, a revista registrou a resposta do pastor negro Gary Frost, que aceitou o pedido e orou para que o arrependimento se mostrasse em atitudes e ações.